segunda-feira, 7 de julho de 2008

Actividade Ecológica

Neste domingo, dia 6 de Julho, decorreu na Tapada de Mafra uma actividade de voluntariado ecológico organizada pela Associação Cultural Nova Acrópole.
Participaram nesta acção estudantes do Programa de Formação Gratuito para Jovens «Kairós», amigos e associados da Nova Acrópole.
Foi num ambiente sereno, e partilhando o cenário com gamos e javalis, é que a remoção de resíduos não bio-degradáveis decorreu. Uma manhã que passou rapidamente em ambiente de boa disposição e empenho.

Na parte da tarde, depois do almoço, o Eng. Pedro Ochoa fez uma pequena apresentação onde abordou o ecossistema da tapada de Mafra, os diferentes aspectos a ter em conta na organização de um bosque, de uma tapada e de um jardim, bem como algumas curiosidades. Por exemplo, ficamos a saber que a expressão «limpeza de matas» pode ser entendido de maneira diferente. Se a pessoa for leiga entenderá que se irá proceder à remoção de lixo, porém, um silvicultor perceberá que se irá realizar uma limpeza de arbustos e plantas que possam estar a atrapalhar o desenvolvimento de outras espécies vegetais.

Paulo Loução abordou a temática da relação do Homem com a Natureza, que tem mudado muito nos últimos séculos, principalmente a partir do momento em que o ser humano assumiu que não era parte integrante da Natureza e que esta era um recurso para ser gerido por ele. Todas as civilizações antigas defendiam um ponto de vista em que o Homem estava integrado dentro do seio da própria Natureza, participando dos seus ritmos e ciclos. Para se entender melhor este modo de pensar insiro a carta que o chefe índio Seatlle enviou ao Presidente dos Estados Unidos em 1854, onde faz uma reflexão profunda sobre a relação e o respeito pela Terra.

Foi um dia bem passado e que espero que se repita novamente, pois o contacto com a Natureza regenera o ser humano, habituado a viver em «selvas de concreto» e perdendo a ligação com a terra e com a serenidade e harmonia que esta generosamente nos oferece. Para terminar aí fica a carta.




RESPOSTA DO CHEFE SEATTLE AO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS -1854

Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra?
Essa ideia parece-nos estranha.
Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo.
Cada ramo brilhante de um pinheiro,
cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa,
cada clareira e insecto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo.
A seiva que percorre o corpo das árvores, carrega consigo as lembranças do homem vermelho.

Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas.
Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois é a mãe do homem vermelho.
Somos parte da terra e ela faz parte de nós.
As flores perfumadas são nossas irmãs, o cervo, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos.
Os picos rochosos, os sulcos húmidos nas campinas, o calor do corpo do potro e o homem - todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós.

O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos.
Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos.
Portanto, nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil.
Esta terra é sagrada para nós.
Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados.
Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida de meu povo.
O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede.
Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças.

Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nosso irmãos, e seus também.
E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicarem a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes.
Uma porção de terra para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra coisa, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra, aquilo que necessita.

A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda.
Arranca da terra aquilo que seria de seus filhos e netos.
A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos.
Trata a sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.

Eu não sei, os nossos costumes são diferentes dos seus.
A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho.
Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco.
Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar das folhas na primavera ou o bater das asas de um insecto.

Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo.
O ruído parece somente insultar os ouvidos.
E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite?
Eu sou um homem vermelho e não compreendo.
O índio prefere o suave murmúrio do vento, encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.

O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos compartilhamos o mesmo sopro.
Parece que o homem branco não sente o ar respirar.
Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro.
Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que mantém.

O vento que deu ao nosso avó seu primeiro inspirar também recebe seu último suspiro.
Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir saborear o vento açucarado pelas flores dos prados.
Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra.
Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos.
Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir.
Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um comboio que passava.

Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecermos vivos.
O que é o homem sem os animais?
Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem.
Há uma ligação em tudo.

Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo.
Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe.
Tudo o que acontece à terra, acontecerá aos filhos da terra.
Se os homens cospem na terra, estão cuspindo em si mesmos.
Isto sabemos: a terra não pertence ao homem: o homem pertence à terra.
Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família.

Há uma ligação em tudo.
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra.
O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios.
Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.
Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum.
É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo.
Veremos.

De uma coisa estamos certos – e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que O possuem, como desejam possuir nossa terra, mas não é possível.
Ele é o Deus do homem vermelho e Sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco.
A terra lhe é preciosa e feri-la é desprezar o seu criador.
Os brancos também passarão: talvez mais cedo que todas as outras tribos.
Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejectos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho.

Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam.
Onde está o arvoredo?
Desapareceu.
Onde está a águia?
Desapareceu.
É o final da vida e o início da sobrevivência.

3 comentários:

Hermeticum disse...

Mais um excelente post.
Esta vida ocidentalizada não tem sentido nenhum. Parecem baratas tontas, sempre a mexer-se e nunca estão verdadeiramente em lado algum.
Claro que esse tipo de vida leva a estados de angustia que normalmente são irreversiveis.
O pior de tudo é que quando alguém, que já não se deixa arrastar completamente pela corrente da mediocridade, tenta fazê-los ver que existe algo mais é imediatamente ridicularizada.
Um dos maiores mitos que circulam por aí é que a Filosofia não passa do facto de estar sentado à janela a pensar, e que nada faz pela vida da própria pessoa. Penso que esse é o primeiro passo a dar numa longa caminha que levará a uma viragem de consciência global.

Seshat disse...

Concordo com o que disse o Hermeticum. E pegando nas palavras dele "um dos maiores mitos que circulam por aí é que a Filosofia não passa do facto de estar sentado à janela a pensar, e que nada faz pela vida da própria pessoa", gostaria de acrescentar que também me entristece bastante observar no meu dia a dia, pessoas que de facto estão dispertas para todos os perigos da ocidentalização selvagem...conhecem a teoria, mas vivem exactamente ao contrario dos ideais que preconizam. Saber que a àgua é um bem preciso mas ainda assim gastá-la inconsncientemente, saber que é necessário pensar no "próximo" mas colocar-se a si próprio sempre em primeiro lugar, são apenas alguns exemplos. Do meu ponto de vista enquanto o "milagre da vida" nao for novamente compreendido, respeitado e amado (como em tempos ancestrais) o homem jamais voltará a encontrar harmonia neste planeta.

Civo disse...

Espero poder ir à próxima actividade! Entretanto resta-me imaginar como tudo foi, com a ajuda dos posts de "El Professor"! ;)

Grande abraço!

Cláudio